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O MOMENTO DE DESISTIR



Aprendemos que desistir não é opção. A desistência é invariavelmente conectada com fraqueza, com falta de coragem ou de estamina. No dia a dia sou diversas vezes confrontada com esta questão em terapia, por um lado pessoas que carecem de resiliência para não desistirem face aos obstáculos, por outro pessoas que teimosamente insistem em algo que apenas as leva a um acumular de frustração e dispêndio de energia. Mas não é só em terapia que isto acontece. Na minha vida este é um tema que se faz presente e que me leva a profundas reflexões e integrações da minha experiência. Essa ideia de que um Psicoterapeuta é alguém acima dos dramas humanas é tão ilusória como qualquer outro ideal que pertence apenas ao mundo das ideias e não pode encontrar correspondência no mundo real da tentativa e erro. O Psicoterapeuta, o Terapeuta, o Filósofo, o Mestre, são apenas pessoas. E é bom que assim seja. Sejamos pois humanos, que é o que nos permite refletir e descobrir cada vez mais sobre a nossa natureza deliciosamente – mas dolorosamente também – falível e por isso, real e autentica.

Identificar até que ponto persistir é sinal de determinação e confiança, e em que momento ultrapassamos a linha da prudência e entramos na zona irresponsável da insistência que nada nos acrescenta além de dor e frustração é imprescindível para a nossa vivência. E vivência é diferente de sobrevivência, viver é diferente de sobreviver…e ninguém nos ensina a diferença, daí a nossa permanente confusão.


Hoje em dia a persistência é exaltada. A desistência, jamais. Basta percorrermos a seção de obras de autoajuda de uma livraria. Encontramos uma imensa variedade de livros que louvam a persistência e a determinação. São milhares de depoimentos ilustres e também de desconhecidos que se tornaram heróis pela sua capacidade de superar obstáculos e não desistir jamais. Verdadeiros legados da força de vontade, de resiliência e persistência. Contra tudo e contra todos… e eu sei que hoje em dia essa coisa dos livros caiu em desuso, mas é inevitável não me recordar da obre D.Quixote de la Mancha de Miguel de Cervantes. Pois se não desistir é importante, saber quando o fazer pode assumir igual importância.




Não coloquemos em causa que a persistência e insistência são essenciais a todas as grandes conquistas humanas. Mas em determinadas situações, são puramente teimosia e – não falta de inteligência! – impeditivas de uma saudável existência. É que a linha que separa uma da outra é tão subtil e indelével como um suspiro o pode ser. Estamos na zona cinzenta da transição, e toda a transição tem limites líquidos, como a delimitação entre o oceano e a areia da praia - há sentimentos que também são assim, estão lá e cá, às vezes mais lá do que cá, e vice-versa. Quem nunca esteve perante situações em que sentimos que estamos com os pés na areia e depois na água, sem darmos um passo que seja? Comparo a persistência a um estado assim, e poderá afetar toda a nossa vida não conseguirmos distinguir se a nossa insistência faz parte da areia – continente, terra, elemento sólido – ou se faz parte do vasto e mutável oceano da teimosia profunda? A resposta pode levar-nos à conquista mais saborosa, ou ao afogamento mais doloroso…


Todo o empreendedor sabe, ou aprende a saber, o valor da resiliência. A importância de se manter firme nos seus objetivos, de aguentar o pior para conquistar o melhor. Aprendemos a transformar o medo em coragem, o cansaço em firmeza e a não desistir. Mas igualmente importante é aprender quando desistir. Quando devemos retroceder, reformular, repensar, dar dois ou mais passos atrás para podermos observar e delinear novos caminhos. Economizar esforços e energia e traçar novas estratégias que nos levem a bom porto – seja que porto for, estejamos no campo profissional, ou no campo pessoal das emoções.

Chegamos então à estratégia. A estratégia é a arma que nos poderá salvar de grandes catástrofes e de grandes desgostos, pois ajudará a identificar com precisão o momento de retroceder, o momento em que a inteligência será proporcional ao nosso poder de encaixe de algo que não nos é agradável – nem por vezes natural – fazer, mas que se revela crucial para que o resto da nossa vida possa acontecer.


A desistência é de tal forma mal conotada que perdemos o sentido real da vida…desistir significa que tentámos. Só desiste quem tenta, quem experimenta, quem se disponibiliza a fazer o movimento – e aqui falo tanto de empreendedorismo profissional quanto emocional! E sim é verdade que há quem desista ao mínimo contratempo, mas esta reflexão é sobre quem insiste para lá dos limites razoáveis do bom senso. Permitam-me. Escrevo sobre as pessoas que aprenderam que desistir é sinal de fraqueza e que por isso se levam a esforços hercúleos para manterem aquilo que não tem qualquer base para ser continuado e bem sucedido, pessoas que marcham resilientemente para o precipício do qual dificilmente se erguerão.


Um aparte…se te identificas com estas linhas talvez seja interessante olhares para trás, para as tuas origens e perceberes com quem aprendeste a ser assim. Quem é que te ensinou que desistir era fraqueza, seja porque sempre desistiu, seja porque nunca desistiu (aaahhh estas maravilhosas polaridades opostas de um mesmo eixo existencial!!!), quem estás tu a tentar impressionar que nunca será impressionado por ti, não por tu não seres suficiente mas simplesmente porque nada nem ninguém nunca será suficiente para o vazio que eles trazem em si? Quem na tua família ou circulo nuclear de infância era assim?


Emocionalmente quantas vezes apostamos e damos tudo em relacionamentos que não o são, mas dos quais não desistimos pois queremos que sejam? E quantas vezes nos atravessamos em negócios por vermos nos parceiros algo que eles não veem neles e que por isso não existe e nos afunda?


As revistas especializadas em negócios reforçam a importância de rever as estratégias e mudar os planos, de exercitar a capacidade de fazer diferente, desistir do que se pretendia e criar uma nova meta ou encetarmos novos caminhos que nos levem à meta pré-estabelecida – este é apenas mais um dos paradoxos humanos: a aplicação da desistência a favor da conquista. E é tão verdadeiro no campo profissional quanto no pessoal ou emocional. Então pergunto-te: em quantos oceanos terás que te afogar ou em quantos precipícios terás que cair até aprender?


Tentar. Experimentar. Descobrir. As vezes que forem necessárias. Até conseguir. Não conseguir é frustrante - mas faz parte da tentativa, faz parte desta experiência a que chamamos vida. Levantar a cabeça após cada queda e seguir em frente é o que nos dignifica. Saber o momento de mudar de estratégia e de rumo é o que comprova o nosso grau de inteligência, mesmo que isso signifique desistir.


Só não desiste quem não tenta, quem não experimenta, quem não se abre à descoberta da vida. Esta conotação que damos à desistência impede-nos de entender o quão danoso pode ser não reconhecer o erro, o engano, a necessária alteração de planos, de rumo ou até de meta. E pode ser a fonte de toda uma vida perdida e não plenamente vivida.

Possamos então recordar estas palavras em todos os momentos em que a escolha entre persistir e desistir surgir na nossa vida:


Possa eu ter a serenidade Para aceitar aquilo que não posso mudar, A coragem para mudar o que me for possível E a sabedoria para saber discernir entre as duas.


@Cristina Fernandes

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