O outro traz-nos notícias de nós mesmos


O outro traz-nos notícias de nós mesmos.

Seja ao espelhar-nos algo que provoca em nós uma reacção, seja simplesmente ao ver o invisível e ajudar-nos a olhar aquilo que, em nós e para nós mesmos, era até esse momento imperceptível.

São momentos que de tão inesperados e simples, nos surpreendem com uma autor-revelação de mais uma peça importante deste puzzle que é o nosso inconsciente e a forma como o que nele reside "adormecido" influencia e comanda as nossas atitudes, acções e reacções.

Basta para isso que se esteja disponível a receber o outro e a sua visão de nós mesmos. Sairmos de nós e olharmos-nos com os olhos e o coração do outro. Simples, e contudo, tão difícil. Automaticamente as justificações, os mas, o rebater, a contestação. O impulso da resposta sem pensar, sem ouvir, sem receber. Simplesmente receber aquela perspectiva nova e permitir que ela – qual liquido de cor diferente – tenha o tempo para escorrer em nós e mesclar-se com a cor, até então, confortavelmente vestida.

A humildade, a curiosidade, e a vulnerabilidade tornam-se condições sine qua non para que esse insight tenha as condições de acontecer e derreter as defesas congeladas há tanto construídas que ficaram esquecidas, mas activas, no nosso inconsciente.

É então que aquilo que constituía apenas uma memória longínqua de infância, que até já podíamos ter percebido que teria importância, mas que permanecia flutuante e sem significação, encaixa no lugar certo de todo um complexo mecanismo que faz o tal clique de que tanto falamos e nos leva ao próximo patamar do ser. Ser o quê? Ser. Apenas ser o que se é, quem se é…acredito que já somos tudo mas que nos fomos escondendo de nós mesmos até nos esquecermos onde nos deixámos, pelo caminho percorrido.

Desengane-se quem pensa que já está fora deste ciclo constante de despir máscaras e defesas, pois talvez seja essa a derradeira armadilha que nos impede de ir mais além, de ir mais fundo nesta viagem que é a vida. É que para lá de todas as defesas e barreiras que sabemos que temos, há todo um mundo de defesas e barreiras que desconhecemos.

Essa coisa de nos amarmos a nós mesmos e não precisarmos de ninguém, de sermos todos autos-suficientes e independentes tem a sua razão de ser, mas esquecem-se de dizer que para tal acontecer…há primeiro que conhecer. Como posso amar alguém que não conheço? Será esse amor verdadeiro? Trará o perdão, a aceitação e a gratidão transparentes e livres de condicionamentos, de dentro para fora? Aquelas que não se pensam, mas que se sentem? E como posso eu conhecer-me sem estar em contacto com o outro? Como posso aprender a amar-me sem aprender a amar o outro? Ou melhor…como posso eu desaprender tudo o que me impede de simplesmente amar, se não estiver em relação com o outro?

Desde que nascemos que todo o nosso processo de formação de personalidade e consciência é feito em relação com. Sem a relação, esta construção que somos nós não existiria, nem sobreviveríamos.

É nos afectos e na vinculação - na conexão mais intima entre dois seres que se dá pela alma e então transbordada para os corpos se faz carne - que esta dança em espiral ascendente se torna possível e que podemos almejar um auto-conhecimento mais profundo e, quem sabe, sanar as feridas que carregamos escondidas nas profundezas da nossa sombra...


@Cristina Fernandes

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