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O Pai ausente ou inadequado




A dor de um pai ausente ou que exerce a parentalidade de forma desadequada é uma ferida gerada na infância que muitos carregam durante toda a idade adulta.

Estamos habituados a falar da importância do papel da Mãe na formação psíquica da criança ... e o papel do Pai acaba relegado para segundo plano, ou até, é esquecido. Se até há cerca de 3 gerações atrás as questões relacionavam-se mais com uma parentalidade desadequada, muitas vezes violenta ou emocionalmente deficitária, hoje assistimos cada vez mais às consequências de uma parentalidade ausente, fruto da alteração do modelo familiar e do aumento de famílias monoparentais. Estas famílias monoparentais não são consequência direta do divórcio ou separação, mas sim de atitudes de total alienação – por vontade própria do homem que “esquece” as suas obrigações e o amor que um filho necessita, ou por vontade das mães que impedem propositadamente os pais de exercer o seu papel na vida dos filhos como represália.

Este é um tema central na minha vida, presente quase diariamente em consultório. Mas é também um tema central na minha vida pessoal pois sou há 14 anos mãe a “solo” de uma jovem adolescente que não conhece o pai por este se ter separado dela aquando da nossa separação e ter escolhido não desempenhar o seu papel na vida da filha. Este é um padrão familiar da minha linha ancestral feminina. A minha avó materna foi mãe solteira numa aldeia, em 1943. A minha mãe foi mãe solteira em 1965 (do meu irmão). E eu não fui mãe solteira, mas é como se o fosse desde os 10 meses da minha filha, que agora está quase a fazer 15 anos.

Tenho também o prazer de conhecer, quer ao nível pessoal, quer de prática clinica, homens que são Pais dedicados, que são Pais a solo, ou que lutam arduamente contra situações de alienação parental provocadas pelas mães dos seus filhos.

Há que sublinhar que por trás dos homens e mulheres que não sabem ou conseguem desempenhar o seu papel de Pais e Mães, existe uma história e quase sempre também uma criança ferida que não conseguiu outra resposta à sua dor. Na verdade, tanto pais como mães são, antes disso, homens e mulheres com as suas histórias, vivências e aprendizagens e são o resultado também de feridas da infância reprimidas e, quase sempre, por eles desconhecidas.

Há que falar sobre este tema. Há que reformular as teorias e os estudos e adequá-los à atualidade – o Mundo mudou mais e mais rapidamente nos últimos 40 anos que nos 100 precedentes - e encontrar soluções que ajudem a evitar um perpetuar de dor e de raiva que leva apenas a uma repetição de padrões inconscientes impeditivos da plenitude enquanto seres humanos adultos e senhores das suas vidas. Estas feridas, quando ignoradas e desconhecidas por serem fruto de emoções reprimidas, comandam as nossas vidas, a nossa visão e interpretação do mundo, os nossos comportamentos, os nossos sentimentos, e têm consequências devastadoras que nos afetam a todos e afetam também o Mundo enquanto um todo.

Muitos estudos indicam que crianças que têm o pai envolvido na educação e presente nas suas vidas (mesmo que divorciados ou separados) têm a autoestima mais elevada; são mais seguras emocionalmente; desenvolvem relações sociais e afetivas mais saudáveis; são mais empáticas; têm melhores resultados escolares e desenvolvem mais inteligência emocional. No caso das filhas, alguns estudos apontam para uma menor incidência de relacionamentos abusivos e uma maior estabilidade emocional. Um estudo feito pelo National Fatherhood Initiative indicou que a ausência paterna pode gerar, na vida adulta dos filhos, problemas económicos, sociais e de saúde física e mental. Segundo esta organização, os Estados Unidos gastam anualmente US$ 100 bilhões em programas sociais para reduzir os impactos da ausência paterna.

Ter um pai ausente deixa muitas sequelas. A criança não sabe o que o adulto sabe. A criança só sente, e não tem como saber ou reconhecer o que sente e porque o sente. Esse sentir é imenso e é organizado e registado no inconsciente e na memória celular do corpo, que não obedece à lógica racional mais tarde desenvolvida. Tudo o que é demasiado e que coloca em perigo o desenvolvimento psíquico da criança é reprimido e dá origem a uma perceção de si mesma e do mundo distorcida, e a respostas e defesas que são automatizadas e que vão manifestar-se de forma diferente, tendo em conta todas as variáveis pré-existentes, internas e externas. O desapego emocional e a dificuldade em estabelecer vínculos afetivos fortes e duradouros, a falta de empatia e desresponsabilização constante, a dificuldade em aceitar regras ou autoridade, e até a repetição do comportamento paterno quando se tornam pais, são defesas comuns.

Estes filhos são mais inseguros devido ao sofrimento emocional causado pela ausência paterna, são pessoas que têm mais medo da deceção e do abandono. Têm mais medo de falhar. Este medo pode gerar uma enorme dependência emocional em relação a outras pessoas levando a relacionamentos tóxicos. É comum também a autoestima mais baixa, e uma manifesta falta de confiança em si mesmas. A rejeição paterna deixa um vazio difícil de ser preenchido. Para a criança, a culpa é dela, há algo de errado nela, e em adulto esta culpa vai refletir-se num sentimento de não merecimento, de auto-sabotagem, de uma exigência de perfecionismo que não permite relaxar, disfrutar ou reconhecer o seu valor. O sofrimento gerado por um pai ausente pode ter várias consequências psicológicas como uma maior propensão para a depressão, a ansiedade, os comportamentos compulsivos, as adições e a anorexia, entre outros. A rejeição é absorvida como uma rejeição do direito de existir (auto-afirmação), de ser visto (exposição), de ser amado (merecimento) e de se sentir autónomo (validação). Consequentemente, os padrões vão repetir-se até que o conteúdo reprimido possa vir à superfície e ser ressignificado e reintegrado de forma saudável, permitindo o desenvolvimento de novas respostas mais adequadas e assertivas.

Estes adultos que carregam em si mesmos a sua criança ferida desconhecida, são mais propensas a entrar em relações tóxicas devido à baixa autoestima e à carência afetiva. Por um lado a crença de não terem sido suficientes para serem amados leva a que possam tornar-se co-dependentes, cuidadores abnegados, a sentirem-se atraídos e manterem relacionamentos onde há abuso constante acreditando que vão ser capazes de salvar o outro, de o mudar – de fazerem o que a criança tão desesperadamente queria ser para o pai: ser suficiente para ser amada.

O primeiro passo para curar esta ferida é reconhecer essa dor, identificar como ela se manifesta e controla a nossa vida, e aceitá-la. A partir deste ponto de consciência, o caminho a seguir vai depender da real necessidade de cada individuo, e daquilo que mais sentido lhe fizer para se libertar do condicionamento gerado pela ausência do pai. É de extrema importância reconhecer e canalizar de forma produtiva as emoções reprimidas, mas para isso há que ter um espaço seguro onde essas emoções possam ser sentidas sem julgamento dando voz à criança ferida. Essas emoções ficaram congeladas no seu pico máximo, como uma onda que é impedida de se derramar, de atingir o ponto de rebentação. É necessário permitir o vazamento dessa onda, para o processo de cura e ressignificação então iniciar.

Gosto de usar a metáfora das ondas do mar para que se possa ter uma perceção mais aproximada deste processo. A formação das ondas do mar ocorre com a ação do vento, o qual, ao soprar por longas distâncias, empurra a água até gerar nela essas ondulações. Quanto mais no alto mar (maior profundidade) essa onda (emoção) for gerada pela ação do vento (ausência ou incapacidade do pai), maior será a sua massa de água e o tamanho atingido ao aproximar-se da costa. A criança não tem estrutura para aguentar o impacto emocional, é como que um frágil e minúsculo barco a remos, e por isso mesmo, o inconsciente encontra uma resposta (defesa) que congele essa onda emocional antes que ela desabe e vaze toda a sua força (momento em que a onda se quebra e atinge a chamada zona de rebentação).

O perdão, se for importante, só pode acontecer depois. O forçar do perdão antes do seu tempo, ou no processo de alguém que não quer nem precisa de perdoar, é contraproducente e pode levar a um sentimento de culpa e de frustração que irá apenas aprofundar uma dor, já de si, imensa.

O processo terapêutico deverá sempre respeitar o tempo e o ritmo de cada ser, bem como o caminho que mais sentido lhe fizer e melhor o ajudar a superar e ressignificar o trauma, capacitando-o para desenvolver respostas emocionais e sociais mais saudáveis e assertivas e libertando-o para viver a sua vida mais plenamente e consciente.


Cristina Fernandes

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