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Porque é tão difícil sair da relação tóxica

O abuso psicoemocional é como um envenenamento a conta-gotas.

No início a vitima não se apercebe de nada. Tudo é perfeito, tudo é exatamente como sempre sonhou. Todas as suas resistências, cuidados, medos, são meticulosamente estudados. A partilha dos traumas do passado, da sua história, sonhos e receios, é incentivada e sem dar conta a vitima entrega a informação que o Narcisista necessita para a poder levar a confiar nele, mostrando-lhe o quanto ele é diferente de todos os outros e igual a ela.



Ela vai assim baixando as suas defesas à medida que é alvo de um verdadeiro bombardeamento de provas de amor. Todas as crenças da vitima quanto à sua idealização de amor são correspondidas e há aquela sensação de que, finalmente, se encontrou a sua alma-gémea. Quando o narcisista percebe que há uma entrega total, subtilmente tudo começa a mudar.

Passado um tempo começa-se a sentir que algo não está bem, mas as mudanças são tão subtis que a vitima acha que é da sua cabeça, que é uma impressão, e vai ignorando estas perceções. Mais adiante, conforme as situações de tensão se vão sucedendo, começa-se a sentir muito mal, contudo já está tão envolvida, a relação já envolve tanta exposição à família e amigos, o Narcisista já é tão bem visto por todos e ela mesma já se encontra tão isolada emocionalmente, que a sua lucidez e capacidade de análise e reação ficam comprometidas.

O bombardeamento de amor no inicio da relação causam um efeito de bem estar extremo, prazer e euforia que são viciantes e que levam a que incessantemente se busque que esteja tudo bem para serem novamente sentidos. Exatamente como uma droga. O chamado sistema de recompensa do cérebro é o circuito que processa a informação relacionada à sensação de prazer ou de satisfação. Quando nos deparamos com um estímulo prazeroso, o nosso cérebro lança um sinal: o aumento de dopamina, importante neurotransmissor do sistema nervoso central.

A paixão inicial age exatamente como uma droga no neurónio dopaminérgico, isto é, neurónios cujo principal neurotransmissor é a dopamina, induzindo um aumento brusco e exacerbado de dopamina associado a sensações de prazer. Este mecanismo é arcaico e evolutivamente muito antigo e está relacionado com a sobrevivência da espécie pois é o que motiva todos os animais mamíferos e não só, à busca da satisfação das necessidades básicas inerentes à vida – comer, beber, procriar. O nosso cérebro está programado para buscar tudo aquilo que nos faz sentir bem, o que leva à automatização de um “vicio”, ou seja, do comportamento que traz esse surto dopaminico.

O síndrome de abstinência emocional é a ausência deste estimulo, e o pensamento recorrente e obsessivo que traz tanto sofrimento é a tentativa desesperada de um regresso a esse bem estar através do caminho neuronal gravado no nosso cérebro.

Nenhuma relação tóxica começa declaradamente tóxica e nenhum narcisista se revela como tal até ter a certeza de deter o controlo emocional da sua vitima. O Narcisista vai, progressiva e sorrateiramente, minando a autoestima e a identidade da vítima, fazendo-a duvidar daquela “sensação estranha de que existe algo errado” nesse relacionamento tenso, imprevisível, onde períodos de calma e lua-de-mel (reforçadores do sinal dopaminérgico) e períodos de caos e turbulência se vão sucedendo ciclicamente. O caos é provocado pelo narcisista mas através das suas capacidades manipulativas ele consegue levar a sua vitima a acreditar que a culpa é dela, potenciando assim o alivio dela quando ele volta a ser amoroso. Cada vez menos amoroso, cada vez durante menos tempo…

Até a vítima conseguir perceber a verdadeira natureza do ciclo de abuso é um longo caminho, normalmente repleto de tentativas frustradas, de avanços e recaídas. As suas qualidades de empatia, a sua ingenuidade, a sua idealização, a sua bondade, o seu sentido de responsabilidade, entre outras, vão jogar fortemente contra ela e o sentimento de dúvida e de culpa vão ser constantemente ativados pelo narcisista. Trata-se de uma contaminação e as sequelas da exposição à toxicidade são profundas. O processo de desintoxicação exige tempo, energia e um trabalho intenso de reconstrução da sua identidade, da sua autoestima e autoconfiança.

Se está neste caminho recorde-se que não está só e que esta situação nada tem a ver com a sua inteligência, educação, ou capacidade de raciocínio. A vergonha que pode estar a sentir é apenas mais um dos mecanismos ativado pelo narcisista. Vergonha não é amar, mas sim não saber amar e alimentar-se do amor de alguém.


Cristina Fernandes

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