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Zona de Conforto e outros chavões

Talvez tenha chegado a altura para falarmos de alguns conceitos que revestidos de uma aura motivacional e aparentemente bem-intencionada acabam por gerar uma nuvem tóxica que pode, em muitos casos, levar a verdadeiras catástrofes pessoais, emocionais, financeiras ... arrisco-me a dizer: totais.

Zona de conforto

Desde Freud que é sabido que a aprendizagem, desenvolvimento e evolução são impulsionadas pelo atrito, pelo desconforto, pela falta de algo que se é impelido a procurar. Há vários autores que dedicaram a sua vida ao estudo deste movimento específico a que chamamos evolução, estudos de muitas páginas que dão uma trabalheira a ler e digerir.

(A era da globalização e da informação traz o reverso da medalha, o seu oposto, a desinformação e a proliferação de espe


cialistas em senso comum. Hoje em dia todos sabem de tudo, todos são especialistas e especiais, todas as opiniões são válidas a bem da liberdade de expressão, e a verdade é tão irrelevante que as fake news é que se tornam virais.)


Somos mamíferos. O Homo Sapiens pertence ao reino Animalia e à Classe Mammalia. Todos os mamíferos buscam o conforto e a satisfação das suas necessidades. Esta busca é o que nos trouxe aos dias de hoje – conforto e segurança.


Esta exaltação da zona de desconforto parece até um tanto sadomasoquista se virmos bem a coisa, só um faquir é que gosta de dormir numa cama de pregos e é por curto tempo. E quanto à aprendizagem, ela acontece na zona de conforto. Quando estamos a passar pelo desconforto toda a nossa energia está direcionada p


ara o processo e todo o esforço que ele nos exige, só quando essa chamada zona de desconforto se torna conhecida e familiar e confortável é que se dá a aprendizagem. Para que as aprendizagens sejam integradas é fundamental o conforto. Só nesse espaço temos a serenidade emocional e clareza mental para refletir, observar, analisar e construir novas linhas de pensamento.


A zona de conforto não é um alvo a abater. Mesmo quando ela tem partes de desconforto, há que perceber muito bem o que se passa dentro - dentro daquela zona e dentro da pessoa dona daquela zona – caso contrário corre-se o risco de levar essa pessoa a ceder a um impulso, a uma emoção, a um momento, a uma mania, a um pensamento obsessivo, a um transtorno escondido.


Somos todos tão especiais nesta nova era, mas depois


somos induzidos a ser todos iguais. Uns dizem-se ovelhas negras, outros são as ovelhas brancas, e eu vejo dois rebanhos, cada um a ser conduzido em direções que parecem opostas, mas já sabem o que dizem dos opostos, não? Os opostos são extremidades do mesmo eixo que se tocam. Vou até um pouco mais longe… dividir para reinar continua a ser uma tática muito eficiente.


A tal coisa da normose é tramada, tanto se luta contra ela que nela se volta a cair invariavelmente, um ciclo bem conhecido daqueles que estudam e leem as tais muitas páginas “chatas” que não entregam autoajuda, mas sim conhecimento.

Hoje somos todos constantemente incentivados a ser corajosos, aventureiros, movidos pela emoção e pelo coração, empreendedores, líderes, multi-amorosos, ascencionados, iluminados, salvadores, curadores, etc. Somos bombardeados sem dó nem piedade com mensagens diretas, indiretas, gritadas, sussurradas… Já para não falar que o mundo é só para gente bonita, com estilo e vida Instagram, sempre


bem e no angulo certo, ostentando subtilmente os símbolos da prosperidade vigente que me fazem sempre lembrar dos pequeno-almoços das telenovelas.


Não são poucas as pessoas que me chegam devastadas, confusas, angustiadas e frustradas, quer por terem arriscado e não terem sido bem-sucedidas, quer por não “arriscarem” e acreditarem que por isso têm um problema, quer por estarem cansadas de correr atrás de gambuzinos que nunca encontraram (


sim, nem todos os sonhos são realizáveis, nem todos os sonhos são aquilo que nos vendem e não somos todos talhados para o mesmo).


Todas elas se sentem falhadas. Todas elas sentem que não são suficientes. Todas elas lidam com a pressão constante e permanente dos chavões e frases feitas e sorrisos pepsodente. E não sei bem porquê, mas veio-me neste exato momento à mente a memória daqueles primeiros dias dos esquemas de pirâmide, com as reuniões, os testemunhos, os carros e aparências reluzentes… antes da internet, do marketing digital e tudo o resto que prolifera nas redes sociais e nos enche as caixas de emails. E eu pergunto-me qual será a distância entre o que é mostrado e aquilo que realmente existe.


Claro que somos livres para escrever e publicar o que quisermos. Somos livres para considerar aqueles que nos leem e somos livres para marketizar. So


mos livres para informar e para desinformar. Só lê, segue, compra, acredita, quem quer. Ninguém obriga ninguém. Somos todos livres. Ferozmente livres. Livres para enganar e livres para sermos enganados. Uma liberdade que não rima com responsabilidade…nem com outras coisas talvez importantes.


Tanto que há a dizer sobre isto.


Que me desculpem os especialistas, mas a forma como vejo as coisas é diferente. A zona de conforto é necessária e não deve ser mal vista, abandonada ou destruída. Quanto muito ser transformada para minimizar o desconforto que nela exista (sim, porque o desconforto faz parte da vida como o conforto).

Ela é o nosso território, de onde partimos para explorar o desconhecido que nos rodeia, onde voltamos para integrar tudo o que vivemos e aprendemos. É nesse “entretanto” que o desconhecido se torna conhecido e por isso, deixa de ser desconfortável e torna-se familiar. E então o nosso território expande-se. A nossa zona de conforto amplia-se e torna-se mais rica.


A vida é uma aprendizagem do equilíbrio. Conhecermo-nos é conhecermos e aceitarmos o que de único temos, tanto as potencialidades como os limites, um constante movimento entre opostos que são apenas os extremos de uma mesma coisa.


Cristina Fernandes

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